DICAS DE CULTURA

Como \"Aviso aos Navegantes\" abalou o Mindelo

Há quase 50 anos o filme brasileiro, Aviso aos Navegantes, balançou os mindelenses. A história é revivida 50 anos depois.

Filme de 1958, do realizador Watson Macedo, ‘Aviso aos Navegantes’ marcou uma época no Brasil. Mas até hoje não se sabia que essa longa-metragem marcou, também, a vida de uma parte da população do Mindelo, a segunda maior cidade da República de Cabo Verde.

A descoberta foi feita no mês passado, quando o filme foi incluído na programação mensal do Centro Cultural Brasil-Cabo Verde.

Dois ou três anos depois de estrear-se no Brasil, ‘Aviso aos Navegantes’ chegava ao Mindelo, pelas mãos Guilherme Melo (Tuta) proprietário, na altura, do cinema Miramar. E fez a maior bilheteria de que se tem memória no arquipélago. Houve quem tivesse visto o filme quase duas dezenas de vezes. É o caso, por exemplo, de Álvaro Dantas Tavares, hoje chefe da Casa Civil da Presidência da República, segundo contam alguns contemporâneos que embarcaram no musical, estrelado por Grande Otelo e Oscarito.

Carlos Gonçalves, jornalista e músico, com obra publicada sobre a música cabo-verdiana, diz que era menino, mas recorda-se da movimentação que ‘Aviso aos Navegantes’ causou no Mindelo. “Lembro que o filme encheu tantas vezes a sala que o senhor Tuta deu-se ao luxo de baixar o custo do bilhete pela metade, pelo que nós, crianças, também, o pudéssemos ver”. 

Mais do que levar as pessoas à única sala de cinema da cidade, ‘Aviso aos Navegantes’ saltou das telas para as ruas do Mindelo, introduzindo, na altura, novas palavras no vocabulário mindelense, ficando célebre a explicação que uma das personagens dá à palavra hipótese. Explicação esta ainda hoje repetida, sem se tirar uma vírgula pela geração que fez de ‘Aviso aos Navegantes’ uma forma de vida.

Para além disso, o filme reforçou a ligação musical que já existia entre o Mindelo e o Brasil e influenciou, por exemplo, a criação do grupo de carnaval  Os Chorões. Teté Alhinho, cantora cabo-verdiana, ainda se lembra, menina, “a empurrar um carrinho de bebé que era o símbolo do grupo carnavalesco”.

Quase 50 anos depois, e quando o Centro Cultural Brasil-Cabo Verde integra o filme na sua programação mensal de Maio, ninguém, da parte do Centro imaginava a história cabo-verdiana que estava por trás do filme. Até que o auditório, na quinta-feira, 28 de Maio, foi invadido por um grupo organizado de mindelenses, residentes na capital cabo-verdiana, para recordar um tempo de pura alegria.